Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Linha Diabetes

Linha Diabetes

Gerir a Diabetes

23.10.08, João Vilela Gonçalves

 Os portugueses têm, pela sua situação geográfica, uma ideia da sua posição no mundo. Como se sentirão os noruegueses de Narvik? Empoleirados? Equilibrados? E os australianos, apesar de grandes, sentem o peso de todo o globo nos ombros? Será que os habitantes da Terra do Fogo vivem constantemente com a espada na garganta (leia-se o punhal do continente argentino)? Mas no fundo é sempre o mesmo Mundo, apesar das diversas perspectivas e pontos de vista. Mas neste Mundo existe heterogeneidade, de acordo com o modo como o vivemos.

 

A relação médico-doente alterou-se com os anos; o modo clássico da prática clínica, caracterizado pela anamnese, observação e da prescrição terapêutica, não basta para o sucesso do acto médico. Hoje, o doente e seus familiares são parceiros na negociação terapêutica, sobretudo se de uma doença crónica se trata. Porque numa doença crónica é marco essencial da terapêutica o comportamento que o indivíduo tem perante a sua doença.

 

A patologia cardiovascular é a principal causa de morte nos países ocidentais. Mas essas mortes, pelo menos algumas delas, podem ser evitadas, através do controlo dos principais factores de risco que predispõem aquela patologia. Não tem havido estratégias de grande dimensão e impacto de redução dos hábitos tabágicos ou de controlo da alteração do perfil lipídico, da hipertensão arterial ou da diabetes. Na maior parte dos casos estes factores surgem associados, potenciando o risco.

 

Relativamente à diabetes, existem cinco grandes estudos internacionais, de referência mundial, para a prevenção da doença. Em todos eles, os grupos sujeitos à prática de exercício físico regular e moderado, quando comparados com os grupos tratados só com dieta ou mesmo com um fármaco, tiveram menos casos de novos doentes diagnosticados.

 

Mais recentemente foram conhecidos os resultados do estudo INTERHEART que decorreu em 52 países, envolveu mais de 30.000 pacientes e teve como objectivo avaliar o efeito dos factores de risco cardiovasculares, que podemos alterar com o nosso comportamento, na ocorrência do enfarte cardíaco. O consumo diário de frutas e legumes e o exercício físico diminuem o risco; o tabagismo (mesmo se apenas 5 cigarros por dia) a obesidade abdominal, a diabetes, a hipertensão arterial (valores superiores a 120/70 mmHg) e o colesterol aumentam o risco. Mas a associação destes cinco factores multiplica por 12 o risco!

 

Como transmitimos aos nossos doentes a informação da necessidade da prática regular de exercício físico e seus benefícios? Diria, que de uma forma estereotipada, crua, vazia, pouco assertiva. Recentemente, elaborei com um grupo de 10 diabéticos um programa de avaliação do controlo metabólico durante a prática de Tai-Chi. Os resultados foram muito satisfatórios mas, mais importante que isso, foi criar condições para que 10 pessoas passassem a praticar uma actividade física. O “empurrão” dado permitiu ganhos perceptíveis na autoconfiança, na autoestima e na melhoria do bem estar e desempenho físico.

 

E se centrássemos a consulta de diabéticos no ginásio, junto a uma passadeira, educando o doente no gasto calórico de acordo com o exercício efectuado e suas repercussões no controlo metabólico? Isoladamente pode ser caricato, mas a aplicação dessa estratégia num grupo seleccionado, é por certo motivadora, lúdica e, provavelmente, eficaz. A avaliação clínica e laboratorial surge como complemento. A intenção é perder menos tempo na requisição de exames (supérfluos) e passar mais tempo na motivação do doente, tornando o seu comportamento mais direccionado para um estilo de vida mais saudável, cerne do controlo, não de um mas de vários factores de risco cardiovasculares.

 

Podemos abordar os doentes e a doença de diversas maneiras, embora a frequentemente utilizada careça de total eficiência. A ela estão inerentes gastos elevados de Saúde. Podemos abordar o tema de uma forma inovadora, provavelmente mais realista, mais próxima das pessoas. Até quando vamos continuar a resistir à mudança?